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Senior Living: o mercado imobiliário da longevidade

Senior living e envelhecimento populacional transformam o mercado imobiliário brasileiro

Envelhecimento acelerado da população brasileira cria uma nova demanda por moradias adaptadas, independentes e assistidas, enquanto o mercado nacional ainda possui pouca oferta estruturada diante do tamanho potencial do público 50+

Durante décadas, o mercado imobiliário brasileiro foi construído em torno de uma imagem bastante conhecida: famílias jovens, filhos, apartamentos de dois ou três dormitórios, condomínios com playground, piscina, salão de festas e áreas destinadas principalmente ao lazer familiar.

Essa lógica começa a encontrar um novo desafio.

O Brasil está envelhecendo — e está envelhecendo rapidamente.

A transformação não é uma previsão distante. Ela já aparece nos dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), na composição das famílias, na estrutura etária da população, no mercado de trabalho e, cada vez mais, nas discussões sobre arquitetura, habitação e mercado imobiliário.

Em 2025, a população brasileira já apresentava uma proporção muito maior de pessoas nas faixas etárias mais maduras do que no início da série da PNAD Contínua. Entre 2012 e 2025, a participação da população de 50 a 59 anos passou de aproximadamente 10% para 11,8%, enquanto a parcela de pessoas com 60 anos ou mais avançou de 11,3% para 16,6%.

Somadas, essas duas faixas representam aproximadamente 28,4% da população brasileira.

Considerando a estimativa populacional do IBGE de 213,4 milhões de habitantes em 2025, isso corresponde, por aproximação, a mais de 60 milhões de brasileiros com 50 anos ou mais. O cálculo é derivado da aplicação das proporções etárias da PNAD à população estimada pelo IBGE e, por isso, deve ser tratado como aproximação, e não como uma contagem censitária específica de pessoas 50+.

É uma mudança suficientemente grande para obrigar o mercado imobiliário a fazer uma pergunta que ainda não parece ter sido incorporada com a mesma intensidade em todo o setor:

onde e como essas pessoas vão querer morar nas próximas décadas?

A pirâmide etária brasileira realmente está mudando

A expressão “inversão da pirâmide etária” não é apenas uma impressão visual.

O Censo Demográfico 2022 mostrou que a população brasileira com 60 anos ou mais chegou a 32,1 milhões de pessoas, equivalente a 15,8% da população. Em 2010, eram 20,5 milhões, ou 10,8%.

Isso significa que, em apenas 12 anos, o contingente de pessoas com 60 anos ou mais cresceu 56%.

Ao mesmo tempo, a população de 0 a 14 anos caiu de 24,1% em 2010 para 19,8% em 2022.

A mudança também aparece na idade mediana do brasileiro, que passou de 29 anos em 2010 para 35 anos em 2022.

O movimento fica ainda mais evidente quando se observa um horizonte maior.

Segundo a revisão de 2024 das projeções populacionais do IBGE, a participação das pessoas com 60 anos ou mais, que estava em 15,6% em 2023, deverá chegar a aproximadamente 37,8% em 2070.

Em números absolutos, o grupo deverá passar de cerca de 33 milhões de pessoas em 2023 para 75,3 milhões em 2070.

Ou seja, não se trata de uma pequena mudança de perfil.

Trata-se de uma transformação estrutural da população brasileira.

O Brasil terá mais idosos, mas o mercado precisa entender quem são essas pessoas

Existe, porém, um erro que pode ser cometido pelo próprio mercado imobiliário.

Envelhecimento não significa simplesmente aumento da procura por casas de repouso.

Uma pessoa de 60, 65 ou 70 anos pode estar trabalhando, viajando, praticando esportes, administrando negócios, cuidando de familiares, investindo, consumindo tecnologia e vivendo de forma completamente independente.

É justamente nesse ponto que entra o conceito de Senior Living.

O termo é mais amplo que “casa de repouso” ou “asilo”.

Dependendo do modelo, um empreendimento de senior living pode oferecer moradia para pessoas totalmente independentes, comunidades voltadas ao público 55+/60+, apartamentos adaptados, serviços de conveniência, alimentação, lazer, segurança, atividades sociais, assistência eventual ou estruturas integradas de cuidados.

Há também modelos híbridos, nos quais o morador entra em uma fase independente e pode receber níveis maiores de assistência à medida que suas necessidades mudam.

Essa diferença é fundamental para o mercado imobiliário.

Senior living não deve ser tratado simplesmente como um produto de saúde. É também uma nova categoria de moradia.

A demanda potencial já aparece nas pesquisas

Um dos estudos mais relevantes disponíveis no Brasil foi realizado pela Brain Inteligência Estratégica em parceria com a Caio Calfat Real Estate Consulting.

O “Panorama Nacional de Residências Sênior”, lançado em 2023, reuniu análise nacional e internacional, levantamento do mercado brasileiro e pesquisa com consumidores.

Entre os resultados divulgados pelo estudo, 37% dos entrevistados demonstraram interesse em morar ou investir em empreendimentos voltados ao público maduro.

O levantamento também mostrou que metade dos entrevistados apontava o declínio da saúde como uma das principais preocupações relacionadas ao envelhecimento, enquanto 26% citavam a possibilidade de depender de cuidadores.

Ao mesmo tempo, apenas 12% cogitavam viver em instituições especializadas.

Essa última informação é especialmente importante.

Ela sugere que o mercado não deveria olhar para o envelhecimento apenas pelo prisma da institucionalização.

Existe uma diferença enorme entre “morar em uma instituição porque perdeu autonomia” e “escolher uma moradia planejada para envelhecer com autonomia”.

É exatamente nessa diferença que o conceito moderno de senior living ganha espaço.

O consumidor maduro pode querer outra coisa

A nova geração de pessoas maduras não necessariamente deseja abandonar sua independência.

Em muitos casos, pode ocorrer exatamente o contrário.

O consumidor pode querer um apartamento menor, mais fácil de manter, localizado próximo a comércio, hospitais, restaurantes, parques e transporte.

Pode querer segurança sem abrir mão de privacidade.

Pode querer áreas de convivência sem ser obrigado a viver em uma instituição.

Pode querer serviços de limpeza, manutenção, alimentação, atividades físicas, tecnologia e suporte eventual.

E pode querer continuar vivendo sozinho ou com o parceiro sem depender dos filhos.

Essa mudança de comportamento é particularmente relevante para incorporadoras.

Um empreendimento para longevidade não precisa necessariamente parecer um “condomínio de idosos”.

Ele pode parecer um empreendimento residencial contemporâneo, mas projetado desde o início para acompanhar diferentes fases da vida.

Aging in place muda a lógica do produto imobiliário

Um conceito importante nesse mercado é aging in place — envelhecer no próprio ambiente residencial com autonomia, segurança e condições adequadas.

A OCDE vem tratando a questão da habitação como um componente importante da capacidade de envelhecer com independência.

Em estudo sobre envelhecimento saudável e cuidados comunitários, a organização destaca que o estoque habitacional existente nem sempre é adequado para que as pessoas permaneçam em casa à medida que envelhecem.

A OCDE também aponta que, em 2022, apenas 15,8% dos domicílios na União Europeia e nos Estados Unidos possuíam características especiais de acessibilidade e independência para o envelhecimento.

Esse número revela uma questão interessante:

até os mercados mais desenvolvidos ainda têm um enorme problema de adaptação do estoque existente.

Portanto, a oportunidade não está somente em construir novos condomínios.

Existe também um mercado potencial de retrofit, reformas, adaptação de apartamentos, acessibilidade, tecnologia residencial e serviços.

O problema brasileiro é maior do que simplesmente falta de apartamentos adaptados

No Brasil, a situação possui uma particularidade.

O país envelhece rapidamente, mas ainda não possui um mercado de senior living com escala comparável à de alguns mercados internacionais.

Uma evidência importante vem do próprio setor imobiliário.

Em agosto de 2026, o Secovi-SP realizou o Senior Living Meeting, dedicado especificamente às oportunidades de investimento, arquitetura, operação e desenvolvimento de empreendimentos para longevidade. O evento reuniu incorporadores, arquitetos, consultores, especialistas em consumo 60+ e profissionais ligados à operação do segmento.

O próprio fato de uma das principais entidades do mercado imobiliário paulista dedicar um evento específico ao tema mostra que o assunto deixou de ser apenas uma discussão acadêmica e passou a entrar na agenda empresarial.

Mas ainda existe uma lacuna importante.

O GRI Institute apontou em levantamento de 2026 que o senior living representava apenas 7% das preferências de risco-retorno entre investidores imobiliários consultados, muito abaixo de teses como multifamily e short stay.

O mesmo levantamento apontou a falta de dados estruturados e de escala como características que ainda marcam o mercado brasileiro.

Isso é importante porque demonstra que o potencial demográfico existe, mas o mercado de capitais imobiliário ainda não trata o senior living como uma classe de ativos madura no Brasil.

O Brasil sequer possui dados completos sobre esse mercado

Essa talvez seja uma das informações mais importantes para entender a oportunidade.

Não existe hoje um banco nacional consolidado que permita dizer, com precisão, quantos empreendimentos de senior living existem no Brasil, quantas unidades estão disponíveis, qual é a taxa média de ocupação, qual é o ticket médio, qual é a distribuição regional da oferta ou qual é o tamanho total do mercado.

E é preciso tomar cuidado para não confundir senior living com ILPI — Instituição de Longa Permanência para Idosos.

São conceitos relacionados, mas não equivalentes.

O Censo Demográfico 2022 registrou aproximadamente 161 mil pessoas vivendo em asilos ou outras instituições de longa permanência para idosos, correspondendo a cerca de 0,1% da população brasileira.

Esse número é extremamente relevante para compreender a institucionalização da população idosa, mas não representa o estoque de senior living no sentido imobiliário moderno.

A própria ausência de um registro nacional unificado dificulta conhecer com precisão o número de ILPIs existentes e suas características. Documento da Assembleia Legislativa de Minas Gerais, por exemplo, registra essa lacuna e cita um levantamento do Ipea realizado entre 2007 e 2009, que identificou 3.548 unidades naquele período.

A Fiocruz também vem trabalhando com o Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania para melhorar a produção e sistematização de informações sobre ILPIs e as condições de vida e saúde dos seus residentes.

Portanto, seria incorreto usar o número de ILPIs como se fosse o tamanho do mercado de senior living.

Essa distinção aumenta a qualidade da análise.

E nos Estados Unidos?

É justamente aqui que a comparação internacional começa a ficar interessante.

Nos Estados Unidos, existe um ecossistema muito mais desenvolvido de moradia sênior, com diferentes categorias e operadores especializados.

O National Investment Center for Seniors Housing & Care — NIC — acompanha regularmente o desempenho desse mercado.

No quarto trimestre de 2025, a ocupação do senior housing nos 31 mercados acompanhados pelo NIC chegou a 89,1%, depois de 18 trimestres consecutivos de aumento.

A ocupação do independent living ficou acima de 90%, enquanto o assisted living alcançou 87,7%.

O segmento chamado active adult, voltado principalmente para adultos saudáveis 55+, aproximou-se de 92% de ocupação.

No final de 2025, os mercados acompanhados pelo NIC tinham aproximadamente 635 mil unidades ocupadas.

E existe outro dado importante: a construção de novas unidades vinha crescendo em ritmo inferior à demanda.

Menos de 1.900 novas unidades foram abertas no quarto trimestre de 2025 nos 31 mercados monitorados pelo NIC.

Ou seja, mesmo nos Estados Unidos, onde o senior living é muito mais estruturado, o problema não está resolvido.

A demanda está crescendo e a oferta também enfrenta dificuldades.

O primeiro Baby Boomer completou 80 anos em 2026

O envelhecimento americano também ajuda a explicar a aceleração do mercado.

O Census Bureau informou que a população americana com 65 anos ou mais chegou a 61,2 milhões em 2024, representando 18% da população.

Entre 2023 e 2024, esse grupo cresceu 3,1%.

A população americana também continua envelhecendo enquanto o número de crianças cresce mais lentamente.

No mercado imobiliário, isso significa uma mudança na composição da demanda.

Não se trata apenas de vender casas para pessoas mais velhas.

Trata-se de criar produtos residenciais que atendam diferentes níveis de autonomia durante uma vida que pode durar muitas décadas após os 60 anos.

A Europa possui modelos diferentes — e também enfrenta escassez

A comparação com a Europa precisa ser feita com cuidado.

Não existe um único “modelo europeu de senior living”.

Os países possuem sistemas diferentes de saúde, previdência, assistência social, habitação e financiamento.

Ainda assim, existe uma estrutura de moradia e cuidados para a população mais velha muito mais diversificada em diversos países europeus.

Um relatório da Comissão Europeia publicado em 2026 analisou modelos de cuidados de longa duração em 38 países europeus, incluindo os 27 membros da União Europeia, países candidatos, Islândia e Noruega.

O estudo identificou uma combinação de modelos residenciais, atendimento domiciliar, serviços comunitários e formatos híbridos.

Também apontou uma tendência de migração de modelos estritamente institucionais para alternativas mais centradas na pessoa, autonomia, inclusão social e continuidade do cuidado.

Isso é particularmente relevante para o Brasil.

O futuro do senior living provavelmente não será simplesmente “construir mais casas de repouso”.

Será necessário desenvolver um continuum de moradia e serviços.

O Reino Unido mostra que até mercados maduros têm espaço para crescer

Um exemplo interessante é o Reino Unido.

A Local Government Association afirma que o setor especializado de moradia para pessoas mais velhas está começando a amadurecer, mas ainda é relativamente pequeno.

Segundo a entidade, retirement housing, incluindo moradias independentes e modelos com cuidados, representava aproximadamente 2,6% das residências no Reino Unido.

Na Inglaterra, a estimativa citada pela entidade é de aproximadamente 620 mil unidades de retirement housing, considerando diferentes formatos de moradia para pessoas mais velhas.

Isso mostra que mesmo um mercado mais desenvolvido não significa necessariamente oferta suficiente.

A demanda criada pelo envelhecimento é tão grande que o problema continua sendo uma combinação de oferta, preço, localização, serviços e acessibilidade.

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O Canadá trabalha com uma variedade ainda maior de modelos

O governo canadense também identifica diferentes formas de habitação para a população sênior.

Entre os modelos estão:

  • moradia convencional adaptada;
  • comunidades naturalmente formadas por idosos;
  • independent living;
  • active lifestyle accommodation;
  • assisted living;
  • supportive housing;
  • residências para idosos;
  • instituições de longa permanência;
  • modelos de compartilhamento de moradia.

O governo canadense também destaca experiências internacionais como Lifetime Neighbourhoods, no Reino Unido, comunidades de cohousing na Dinamarca, “Apartments for Life” na Holanda, homeshare na França e villages nos Estados Unidos.

A diferença fundamental é que o mercado começa a tratar a longevidade como uma jornada habitacional, e não como um único produto.

O Brasil começa a se movimentar

Apesar da distância em relação aos mercados mais maduros, o Brasil já apresenta sinais concretos de mudança.

Em 2025, o Grupo São Pietro entrou no segmento imobiliário com uma divisão dedicada ao público 60+, planejando expansão para outros estados.

Em 2026, a ABF Developments, que já opera empreendimentos de senior living no Rio Grande do Sul, avançou com planos para São Paulo, incluindo um projeto nos Jardins e estudos para uma segunda operação no Itaim Bibi.

Outro exemplo relevante aparece em Novo Hamburgo, no Rio Grande do Sul.

Documento registrado na Comissão de Valores Mobiliários descreve um empreendimento denominado Único Senior Living, com 102 unidades residenciais, cinco lojas comerciais e 34 vagas, concebido como empreendimento de uso misto.

São exemplos que mostram que o segmento já existe no Brasil.

O que ainda não existe, em escala comparável a mercados mais desenvolvidos, é uma oferta suficientemente ampla, padronizada e diversificada.

A oportunidade pode estar justamente no público independente

Um dos pontos mais interessantes para incorporadores é que o senior living não precisa começar pela assistência.

O GRI Institute identificou em seu levantamento de 2026 que, entre executivos envolvidos com projetos de senior living, 50% consideraram o modelo independente e ativo como o mais viável para atrair capital e ganhar escala.

Modelos assistidos e integrados ficaram com 24% cada.

A lógica econômica é compreensível.

Um empreendimento destinado a pessoas independentes tende a ter menor complexidade operacional e menor exposição direta à gestão de saúde do que uma estrutura totalmente assistida.

Isso permite que o produto seja pensado mais próximo do mercado residencial tradicional, incorporando serviços e infraestrutura específicos para longevidade.

O produto imobiliário pode mudar radicalmente

Imagine dois apartamentos com a mesma metragem.

Um foi projetado simplesmente para cumprir as normas convencionais de construção.

O outro foi planejado para permitir que uma pessoa envelheça ali durante 20 ou 30 anos.

A diferença pode começar na ausência de degraus.

Passar por portas mais adequadas, iluminação, circulação, banheiros, cozinhas, pisos, elevadores, áreas comuns, tecnologia, sensores, segurança, acessibilidade e facilidade de manutenção.

Mas pode ir muito além.

Um verdadeiro produto de senior living pode incorporar:

  • áreas de convivência;
  • academia adaptada;
  • espaços de fisioterapia;
  • restaurantes ou alimentação programada;
  • serviços de limpeza;
  • lavanderia;
  • transporte;
  • atividades culturais;
  • espaços de trabalho;
  • jardins;
  • áreas para animais de estimação;
  • tecnologia de emergência;
  • monitoramento;
  • integração com serviços de saúde;
  • espaços para familiares;
  • programas de atividade física e socialização.

A questão deixa de ser simplesmente “como construir um apartamento para idosos?”

Passa a ser:

“como construir um lugar onde uma pessoa possa continuar vivendo bem à medida que envelhece?”

O mercado imobiliário brasileiro pode estar olhando para o problema pelo lado errado

Existe uma oportunidade particularmente interessante aqui.

O mercado imobiliário costuma segmentar consumidores por renda, localização e tamanho do imóvel.

Mas a longevidade introduz uma nova variável:

o ciclo de vida.

Uma pessoa de 55 anos pode comprar um imóvel hoje e permanecer nele por 20, 30 ou 40 anos.

Se o empreendimento for pensado para acompanhar essa transformação, ele pode reduzir a necessidade de mudança futura.

Isso abre espaço para uma nova lógica de produto:

moradias preparadas para a longevidade.

É uma abordagem diferente de simplesmente construir um condomínio exclusivo para idosos.

Pode ser um produto destinado inicialmente a pessoas 50+, 55+ ou 60+, mas desenhado para preservar autonomia durante o processo de envelhecimento.

Existe demanda, mas existe também uma grande barreira: renda

É justamente aqui que a tese precisa ser tratada com responsabilidade.

Não basta dizer que existem dezenas de milhões de pessoas 50+ e concluir que todas representam consumidores potenciais de senior living.

Não representam.

A capacidade financeira é uma das maiores limitações do setor.

Levantamento citado pela Folha aponta que o custo de mudança para um imóvel planejado para longevidade é um dos principais obstáculos.

O mesmo levantamento estima que apenas uma parcela muito pequena da população teria atualmente capacidade financeira para realizar uma mudança desse tipo.

Isso significa que o mercado brasileiro provavelmente terá de desenvolver vários níveis de produto.

Não apenas luxo.

Há espaço potencial para:

Senior Living de alto padrão: apartamentos maiores, serviços premium e integração com saúde.

Senior Living intermediário: unidades compactas, serviços essenciais e condomínio estruturado.

Active Adult: moradias para pessoas independentes, com lazer, convivência e segurança.

Moradia adaptada: apartamentos convencionais preparados para envelhecimento.

Assisted Living: moradia com diferentes níveis de suporte.

Modelos híbridos: independência na entrada e possibilidade de aumento gradual dos serviços.

É nessa diversificação que o mercado poderá encontrar escala.

A oportunidade também está no retrofit

Existe outro mercado que merece atenção.

O Brasil não precisa construir tudo do zero.

Milhões de apartamentos já existentes podem ser adaptados.

Banheiros podem ser modificados.

Cozinhas podem ser reorganizadas.

Iluminação pode ser melhorada.

Pisos podem ser substituídos.

Portas e corredores podem ser adaptados.

Sensores e dispositivos de segurança podem ser instalados.

Isso cria uma cadeia que envolve incorporadoras, construtoras, arquitetos, designers, empresas de tecnologia, administradoras, seguradoras, profissionais de saúde, cuidadores e imobiliárias.

A longevidade pode, portanto, criar um ecossistema imobiliário, e não apenas uma categoria de empreendimento.

Para o corretor de imóveis, a mudança também é importante

O corretor que trabalha com público 50+ precisará compreender uma mudança de comportamento.

Nem sempre o cliente estará procurando “um apartamento para idoso”.

Ele poderá estar procurando:

“um apartamento menor”;

“um condomínio mais seguro”;

“um lugar perto dos filhos”;

“um imóvel perto do hospital”;

“uma região onde possa fazer tudo a pé”;

“um lugar com elevador”;

“um apartamento que seja fácil de manter”;

“uma casa que eu consiga continuar usando quando ficar mais velho”.

A necessidade existe, mas o consumidor pode não utilizar a palavra senior living.

Esse é um ponto comercial relevante.

O corretor que entender a necessidade por trás da busca poderá identificar oportunidades antes daquele que trabalha apenas com características tradicionais do imóvel.

Para as incorporadoras, a mudança pode ser ainda maior

A demografia possui uma característica que o ciclo econômico não tem:

ela não muda rapidamente.

Juros podem subir e cair.

Crédito pode expandir e retrair.

Lançamentos podem acelerar ou desacelerar.

Mas uma geração inteira envelhecendo não pode ser revertida rapidamente.

O IBGE projeta que a população brasileira continuará envelhecendo durante as próximas décadas.

Em 2054, a população de 60 anos ou mais deverá chegar a aproximadamente 68,9 milhões, representando cerca de 31,9% da população, segundo análise da Fipe baseada nas projeções do IBGE. Em 2070, o IBGE projeta 75,3 milhões de pessoas nessa faixa etária, aproximadamente 37,8% da população.

Isso dá ao incorporador algo raro:

visibilidade de longo prazo sobre uma transformação estrutural da demanda.

O Brasil pode estar diante de uma nova categoria imobiliária

A questão central desta discussão não é se o Brasil terá mais idosos.

Isso já está determinado demograficamente.

A pergunta é outra:

o mercado imobiliário brasileiro estará preparado para oferecer moradias compatíveis com essa nova sociedade?

A resposta, hoje, ainda parece ser parcialmente.

Existem projetos.

Existem operadores.

Existem pesquisas.

Existem consumidores interessados.

Existem investidores começando a olhar para o segmento.

Existem entidades como Brain, Caio Calfat e Secovi-SP colocando o tema na agenda.

Mas ainda faltam escala, padronização, dados, modelos financeiros, operadores especializados e maior diversidade de produtos.

É exatamente por isso que o senior living pode representar uma oportunidade.

Não porque seja uma moda.

Mas porque está apoiado em uma transformação demográfica que já começou.

O que os números dizem sobre a oportunidade

IndicadorNúmeroFonte
Brasileiros 60+ em 202232,1 milhõesIBGE
Participação 60+ em 202215,8%IBGE
Crescimento da população 60+ entre 2010 e 202256%IBGE
População 60+ em 202333 milhõesIBGE
Projeção 60+ em 207075,3 milhõesIBGE
Participação 60+ em 207037,8%IBGE
Participação 50–59 em 202511,8%IBGE/PNAD
Participação 60+ em 202516,6%IBGE/PNAD
Interesse em morar/investir em empreendimentos para público maduro37%Brain/Caio Calfat
Residentes em asilos/ILPIs em 2022161 milIBGE
Ocupação do senior housing nos EUA no fim de 202589,1%NIC
Ocupação de independent living nos EUAacima de 90%NIC
Ocupação de active adult nos EUAcerca de 92%NIC

O que ainda falta descobrir

Talvez essa seja a parte mais importante para o mercado brasileiro.

Ainda faltam estudos nacionais recorrentes capazes de responder perguntas como:

Quantos brasileiros 60+ querem mudar de residência?

Quantos aceitariam morar em um empreendimento específico para longevidade?

Quanto estariam dispostos a pagar?

Qual percentual prefere comprar e qual prefere alugar?

Qual é a demanda por active adult?

Qual é a demanda por assisted living?

Quais cidades apresentam maior demanda?

Qual é o tamanho do mercado em São Paulo?

E no Rio de Janeiro?

E em Curitiba, Porto Alegre, Belo Horizonte, Brasília, Salvador, Recife e Fortaleza?

Qual é o ticket médio?

Qual é a taxa de ocupação?

Qual é o custo operacional?

Qual é o retorno sobre o investimento?

Qual modelo funciona melhor para o público de renda média?

Essas perguntas mostram que o mercado ainda está no começo de sua curva de conhecimento.

E essa ausência de dados também representa uma oportunidade para empresas de inteligência imobiliária.

Análise Editorial Broker News BR

A tese de que o envelhecimento populacional pode criar uma nova fronteira para o mercado imobiliário brasileiro é consistente.

Mas a análise dos dados permite chegar a uma conclusão mais precisa do que simplesmente afirmar que “o Brasil tem poucos imóveis para idosos”.

O problema é mais amplo.

O Brasil está entrando em uma fase em que longevidade, habitação, saúde, mobilidade, segurança, serviços e convivência passam a fazer parte da mesma equação imobiliária.

O crescimento da população 50+ amplia o mercado potencial.

O crescimento da população 60+ cria uma demanda ainda mais específica.

E a projeção de 75,3 milhões de pessoas com 60 anos ou mais em 2070 mostra que a transformação terá duração de décadas.

Ao mesmo tempo, a experiência internacional mostra que senior living não deve ser confundido com institucionalização.

Nos Estados Unidos, o mercado trabalha com categorias como active adult, independent living e assisted living. Na Europa, modelos de moradia, atendimento domiciliar, comunidades e cuidados de longa duração estão sendo combinados de diferentes maneiras.

O Brasil começa a criar seus próprios modelos, mas ainda apresenta baixa disponibilidade de dados e pouca escala.

É justamente nessa interseção entre demografia previsível e oferta ainda em desenvolvimento que aparece uma das teses imobiliárias mais interessantes para as próximas décadas.

O senior living pode não ser apenas um nicho.

Pode se transformar em uma nova categoria do mercado residencial brasileiro.

Produção Editorial Broker News BR

Esta matéria foi elaborada com base em dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), órgãos governamentais, organismos internacionais, entidades do setor imobiliário e pesquisas especializadas sobre longevidade, habitação e senior living.

Produção Editorial Broker News BR. Esta matéria é um conteúdo original produzido pela equipe editorial da Broker News BR, elaborado com base em pesquisa, apuração e consulta a fontes oficiais e confiáveis do mercado imobiliário para informar corretores de imóveis, imobiliárias, construtoras, incorporadoras e investidores.

Fontes

IBGE — Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística — Censo Demográfico, PNAD Contínua e Projeções da População.

Brain Inteligência Estratégica / Caio Calfat Real Estate Consulting — Panorama Nacional de Residências Sênior.

NIC — National Investment Center for Seniors Housing & Care — dados de ocupação e oferta do senior housing nos Estados Unidos.

OCDE — envelhecimento, habitação adaptada e aging in place.

Comissão Europeia — modelos de cuidados de longa duração e moradia para população idosa na Europa.

Secovi-SP — Senior Living Meeting e desenvolvimento do mercado brasileiro.

GRI Institute — análise de investimentos e maturidade do segmento senior living no Brasil.

Census Bureau — Estados Unidos — população americana com 65 anos ou mais.

Consulte as fontes oficiais

IBGE — Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística

IBGE — Projeções da População

Brain Inteligência Estratégica

Secovi-SP

OCDE

Comissão Europeia

U.S. Census Bureau

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Foto de Camille Assis

Por Camille Assis

Editor/Fundador Site de Notícias Broker News BR
CoFundador Empresa Gráfica Broker Art & Design
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