Depois da grande migração provocada pelo home office, a proximidade do trabalho volta a pesar na escolha de onde morar; dados de cartórios, pesquisas sobre trabalho presencial e indicadores de mobilidade mostram uma mudança que pode afetar capitais, interior e mercado imobiliário
Durante a pandemia, uma das maiores mudanças provocadas pelo home office aconteceu longe dos escritórios: mudou o lugar onde muitas pessoas queriam morar.
Se o trabalho podia ser feito de casa, a distância até a empresa perdeu importância. Uma família que antes precisava morar perto de São Paulo passou a considerar cidades mais afastadas, condomínios com casas maiores, regiões com mais áreas verdes e municípios onde o custo da moradia poderia ser diferente.
Algumas cidades do interior paulista ganharam força nesse movimento.
Mas o mercado de trabalho mudou novamente.
Em 2026, o trabalho presencial recuperou espaço, o modelo híbrido se consolidou e o deslocamento voltou a fazer parte da equação de muitas famílias.
A consequência pode estar chegando ao mercado imobiliário.
Um levantamento do Colégio Notarial do Brasil — Seção São Paulo (CNB/SP) mostra que a capital paulista registrou 90.402 escrituras de compra e venda de imóveis em 2025, volume 49,6% superior ao registrado em 2020. Ao mesmo tempo, municípios que haviam se destacado durante a expansão do home office apresentaram redução no número de escrituras entre 2021 e 2025, como Itupeva, Cotia, Indaiatuba e Atibaia.
Mas existe uma ressalva fundamental.
Esses números não significam que uma multidão esteja abandonando o interior para voltar à capital.
O próprio CNB/SP alerta que a queda nas escrituras não é suficiente para concluir que houve saída em massa de moradores. O dado mostra, principalmente, uma redução no ritmo das transações imobiliárias depois de um período de expansão excepcional.
E é justamente aí que está a história.
O Brasil pode estar entrando em uma nova fase na relação entre trabalho, deslocamento e moradia.
Não necessariamente uma volta ao passado.
Mas uma nova equação.
O home office acabou?
Essa talvez seja a primeira pergunta que precisa ser corrigida.
Não há evidência de que o home office simplesmente tenha acabado.
O que existe é uma forte redução da predominância do trabalho totalmente remoto e um avanço do presencial e do híbrido.
Uma pesquisa da WeWork em parceria com a Offerwise, realizada com 2,5 mil profissionais em todo o Brasil, mostrou que, em 2026, 63% dos entrevistados trabalhavam totalmente de forma presencial, enquanto 20% estavam em modelos híbridos e 12% permaneciam no trabalho remoto.
Há ainda outro dado relevante.
Entre os trabalhadores presenciais, 79% afirmaram que a frequência ao escritório era determinada pela empresa. Ou seja, em grande parte dos casos, voltar ao escritório não foi simplesmente uma escolha individual do trabalhador.
Esse detalhe ajuda a entender o impacto imobiliário.
Durante o auge do home office, a pergunta era:
“Onde eu quero morar?”
Agora, para uma parcela dos trabalhadores, voltou a existir outra pergunta:
“Quanto tempo vou levar para chegar ao trabalho?”
E essa pergunta pode mudar o valor percebido de um imóvel.
A localização voltou a ganhar importância?
Tudo indica que sim, mas é preciso tratar isso como uma tendência em observação, e não como uma regra universal.
Quando o trabalho é totalmente remoto, morar a 50, 70 ou 100 quilômetros do escritório pode ser perfeitamente possível.
Se a presença passa a ser exigida três, quatro ou cinco vezes por semana, a distância passa a ter outro peso.
O imóvel maior, mais barato e mais distante pode continuar sendo interessante.
Mas agora o comprador precisa colocar na conta:
combustível;
pedágio;
transporte;
estacionamento;
tempo de deslocamento;
desgaste físico;
qualidade de vida;
e a frequência com que precisará fazer o percurso.
É uma conta que praticamente desapareceu para parte dos trabalhadores durante o auge do trabalho remoto.
Agora ela voltou.
Uma pesquisa sobre a experiência de trabalho em 2026, realizada pela WeWork e Offerwise, apontou que o deslocamento aparece como uma das principais dificuldades do trabalho presencial. Segundo os dados divulgados, 65% dos profissionais presenciais consideram o tempo de deslocamento uma barreira relevante em sua rotina.
Isso é particularmente importante para o mercado imobiliário.
Porque tempo também é um componente do valor de morar em determinado lugar.
O trânsito é uma consequência dessa mudança?
Há sinais de que o trânsito urbano continua sob forte pressão, especialmente em grandes centros como São Paulo.
Mas aqui também é necessário evitar uma conclusão simplista.
Não seria correto afirmar que o aumento dos congestionamentos é causado exclusivamente pela volta aos escritórios.
O trânsito sofre influência de inúmeros fatores: crescimento da frota, atividade econômica, obras, acidentes, eventos, chuva, transporte público, motocicletas, entregas, transporte por aplicativos e concentração dos deslocamentos nos horários de pico.
A própria CET mantém acompanhamento permanente das condições de circulação e registra variações importantes conforme o dia e os eventos realizados na cidade.
Portanto, a formulação mais segura é outra:
a retomada do trabalho presencial aumenta a necessidade de deslocamentos de parte dos trabalhadores e pode contribuir para a pressão sobre a mobilidade urbana, mas não explica sozinha o comportamento do trânsito.
Essa distinção é importante.
E, para a Broker News BR, é justamente esse tipo de cuidado que transforma uma percepção em uma análise jornalística.
Os cartórios encontraram uma mudança no mapa imobiliário
É aqui que a história ganha força.
O levantamento do CNB/SP mostra que a cidade de São Paulo registrou 90.402 escrituras de compra e venda de imóveis em 2025, recorde dentro da série apresentada pela entidade e 49,6% acima do número registrado em 2020.
Ao mesmo tempo, algumas cidades que ganharam destaque durante o período do home office apresentaram queda no número de escrituras entre 2021 e 2025.
Os números são expressivos:
Itupeva: -57%
Cotia: -41%
Indaiatuba: -36%
São João da Boa Vista: -32%
Atibaia: -31%
Peruíbe: -30%
Itu: -28%
Itatiba: -28%.
À primeira vista, alguém poderia interpretar os dados como uma prova de que as pessoas estão voltando para São Paulo.
Mas essa conclusão seria maior do que os dados permitem.
Uma queda no número de escrituras significa menos transações registradas, não necessariamente menos moradores.
Uma família pode ter comprado um imóvel em determinada cidade durante a pandemia e continuar morando ali.
Outra pode simplesmente ter deixado de comprar.
Outra pode estar alugando.
Outra pode ter comprado em outro município.
E outra pode ter decidido permanecer onde estava.
Por isso, os dados de cartório são extremamente importantes, mas precisam ser interpretados corretamente.
O interior inteiro está perdendo força?
Não.
E esse talvez seja um dos pontos mais interessantes do levantamento.
Se existisse uma simples migração de volta das cidades do interior para a capital, esperaríamos observar um movimento uniforme.
Não é o que os dados mostram.
Alguns municípios continuaram apresentando crescimento das escrituras entre 2021 e 2025.
Taboão da Serra registrou alta de 73%, enquanto Bauru avançou 42%, Barueri 26%, Paulínia 19% e Limeira 14%.
Isso muda completamente a interpretação.
Não existe simplesmente uma disputa entre:
capital contra interior.
Existe um processo muito mais complexo.
Algumas cidades perderam o impulso extraordinário que tiveram durante a pandemia.
Outras continuaram crescendo.
Algumas estão próximas de grandes polos de emprego.
Outras desenvolveram suas próprias economias.
Algumas dependiam mais do comprador que podia trabalhar remotamente.
Outras possuíam demanda baseada em fatores locais.
O mapa imobiliário paulista, portanto, não está simplesmente voltando ao que era antes da pandemia.
Está sendo reorganizado.
A pandemia mudou a lógica da localização
Antes de 2020, para grande parte dos trabalhadores que dependiam do escritório, a localização do emprego era uma das variáveis fundamentais da escolha residencial.
Morar perto do trabalho significava economizar tempo.
Morar longe podia significar uma casa maior ou um preço mais baixo, mas também significava enfrentar deslocamentos diários.
A pandemia rompeu essa lógica.
Quando o escritório entrou dentro de casa, a distância perdeu importância.
O comprador passou a valorizar outras características.
Espaço.
Quintal.
Varanda.
Condomínio.
Áreas verdes.
Quartos adicionais.
Um ambiente para trabalhar.
Qualidade de vida.
Menor densidade.
Foi uma transformação profunda.
Mas, quando a empresa volta a exigir presença física, a antiga variável retorna.
A localização volta a competir com o espaço.
E talvez essa seja uma das principais mudanças que o mercado imobiliário precisa compreender.
O que o comprador está escolhendo agora?
Imagine dois imóveis.
O primeiro tem 150 metros quadrados, três quartos, quintal, condomínio completo e fica a 70 quilômetros do local de trabalho.
O segundo tem 90 metros quadrados, dois quartos, menos área de lazer e fica a 15 quilômetros do escritório.
Durante o home office, o primeiro poderia parecer muito mais interessante.
Com cinco dias presenciais, a decisão pode mudar.
Com três dias presenciais, a diferença diminui.
Com dois dias, talvez o primeiro continue fazendo sentido.
É por isso que o modelo de trabalho pode se tornar uma variável imobiliária.
Não existe mais apenas “comprador de alto padrão”, “comprador de primeira moradia” ou “investidor”.
Pode existir também um comprador que está calculando quantos dias por semana precisa se deslocar.
E isso muda a maneira de avaliar localização.
O híbrido pode ser o grande responsável pela próxima transformação
O cenário de 2026 não é simplesmente presencial versus remoto.
O modelo híbrido ocupa uma posição importante.
Na pesquisa da WeWork e Offerwise, 20% dos entrevistados trabalhavam em modelos híbridos. Dentro desse grupo, havia diferentes combinações de dias presenciais.
Isso significa que a distância aceitável do trabalho pode variar muito de pessoa para pessoa.
Para quem vai ao escritório cinco dias por semana, morar longe pode ser extremamente custoso em tempo.
Para quem vai duas vezes, a mesma distância pode ser administrável.
Para quem trabalha remotamente, a localização do escritório pode ter pouca influência sobre a escolha residencial.
O resultado é um mercado muito mais fragmentado.
E isso pode explicar por que algumas cidades continuam atraindo compradores enquanto outras perderam ritmo.
O mercado imobiliário pode começar a vender “tempo”, e não apenas espaço
Essa talvez seja uma das consequências mais interessantes dessa mudança.
Durante o auge do home office, o argumento de venda podia ser:
“Você pode morar aqui e ter mais espaço.”
Agora pode surgir outro:
“Você pode morar aqui e chegar ao trabalho mais rápido.”
É uma mudança de lógica.
A localização volta a ser uma forma de economizar tempo.
E tempo tem valor econômico.
Uma pessoa que economiza uma hora por dia no deslocamento pode recuperar aproximadamente cinco horas em uma semana de trabalho presencial de cinco dias.
Em um mês, a diferença se torna ainda maior.
Não estamos transformando essas horas em valor financeiro automaticamente, porque isso dependeria de renda, jornada, deslocamento e outros fatores.
Mas o tempo passa a ser uma variável concreta na decisão.
Isso ajuda a explicar a força de determinados bairros?
Pode ajudar, mas não devemos transformar correlação em causalidade.
Um bairro próximo a grandes polos empresariais pode se beneficiar quando a presença física no trabalho aumenta.
e características específicas de cada imóvel.
Mas o preço de um imóvel depende de muitos outros fatores:
localização;
infraestrutura;
oferta;
demanda;
segurança;
serviços;
transporte;
qualidade dos edifícios;
perfil dos compradores;
renda;
crédito;
escassez de terrenos;
lançamentos;
Por isso, não seria correto afirmar que a valorização de determinada região ocorreu porque as empresas chamaram seus funcionários de volta.
Mas é razoável observar que a proximidade dos polos de emprego volta a ser uma característica potencialmente mais relevante na escolha de moradia.
O Itaim Bibi entra nessa discussão?
Entra como exemplo, mas não como prova de causalidade.
Na nossa análise anterior sobre o Itaim Bibi, os dados mostraram um mercado de alto valor bastante ativo em 2026, com crescimento do preço mediano das transações e forte movimentação financeira em imóveis de maior valor.
Mas não temos evidência suficiente para afirmar que esse desempenho foi provocado pela volta aos escritórios.
O bairro reúne muitos outros fatores estruturais.
É uma região consolidada, próxima de importantes eixos corporativos, comerciais e de serviços, com escassez relativa de determinados tipos de imóveis e elevada concentração de patrimônio.
A questão interessante é outra:
quando o local de trabalho volta a ter peso na escolha residencial, bairros próximos aos grandes polos empresariais podem recuperar uma vantagem que havia perdido parcialmente durante o trabalho remoto?
Essa é uma pergunta que merece acompanhamento.
Não uma conclusão antecipada.
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E o interior: pode perder compradores?
Algumas cidades podem, sim, enfrentar uma redução na demanda de determinados perfis.
Principalmente aquelas cuja principal vantagem durante a pandemia estava relacionada à possibilidade de morar longe dos grandes centros sem perder o vínculo profissional com eles.
Mas isso não significa que o interior esteja condenado a perder importância.
A pandemia também acelerou mudanças estruturais.
Muitas pessoas descobriram novas formas de trabalhar.
Empresas contrataram profissionais fora de suas cidades.
Novos serviços surgiram.
Infraestrutura digital avançou.
Empresas passaram a operar de maneira mais distribuída.
E algumas cidades desenvolveram economias próprias.
Portanto, mesmo que parte da demanda imobiliária tenha desacelerado em determinados municípios, isso não significa necessariamente uma reversão completa do movimento.
O próprio CNB/SP ressalta que o cenário atual não representa simplesmente uma volta ao padrão pré-pandemia.
Essa talvez seja a melhor descrição.
Não voltamos ao mundo de 2019.
Também não permanecemos no mundo de 2020.
Estamos construindo outro.
A economia do interior está sendo “sufocada”?
Essa expressão merece cuidado.
Até aqui, os dados imobiliários mostram que determinadas cidades perderam ritmo nas transações.
Mas isso não basta para afirmar que a economia local está sendo sufocada.
Para chegar a essa conclusão seria necessário cruzar outros indicadores:
emprego;
renda;
abertura e fechamento de empresas;
arrecadação;
comércio;
serviços;
ocupação de imóveis comerciais;
população;
migração;
consumo;
e atividade empresarial.
Uma redução das escrituras pode significar menor movimentação imobiliária sem necessariamente representar uma retração econômica geral.
Por isso, a Broker News BR deve resistir à tentação de transformar um fenômeno imobiliário em uma conclusão econômica mais ampla sem evidências suficientes.
Mas existe uma hipótese muito interessante para ser acompanhada.
Se o morador fica, o comércio também fica
Imagine uma família que migrou para uma cidade do interior durante a pandemia.
Ela comprou ou alugou uma casa.
Passou a consumir no comércio local.
Usou restaurantes.
Academias.
Escolas.
Serviços de saúde.
Oficinas.
Mercados.
Profissionais autônomos.
Prestadores de serviços.
Se essa família deixa a cidade, ou deixa de chegar, porque o trabalho voltou para a capital, o impacto potencial não fica limitado ao imóvel.
Ele pode atingir uma cadeia econômica inteira.
Mas, novamente, isso é uma hipótese econômica que precisa ser medida por município.
É uma pauta que pode render uma segunda reportagem, com dados de atividade econômica, empregos, comércio e arrecadação.
Há também uma questão social nessa mudança
A volta ao escritório não afeta todas as pessoas da mesma maneira.
Para um trabalhador que mora perto do emprego, a mudança pode significar pouco.
Para alguém que mudou para uma cidade distante durante a pandemia, pode significar horas adicionais de deslocamento por semana.
Para famílias com filhos, pode alterar logística escolar.
Para quem cuida de idosos ou familiares, pode representar uma dificuldade adicional.
Para quem não possui carro, o transporte público passa a ter peso ainda maior.
E para quem precisa se deslocar diariamente, o custo do transporte pode se transformar em uma parcela relevante do orçamento.
Por isso, a discussão imobiliária não é apenas sobre preço por metro quadrado.
É também sobre tempo, mobilidade e qualidade de vida.
O mercado de lançamentos também pode sentir essa mudança
A transformação pode chegar até o produto que as incorporadoras desenvolvem.
Se a proximidade do trabalho volta a ser valorizada, empreendimentos próximos a estações, corredores de transporte, polos empresariais e centros urbanos podem ganhar uma vantagem comercial.
Isso não significa que imóveis maiores em cidades periféricas ou no interior perderão demanda.
Significa que o produto precisa conversar com a nova rotina.
Um apartamento menor pode ser mais atraente se estiver muito bem localizado.
Um imóvel maior pode continuar sendo competitivo se estiver em uma região com boa conexão aos polos de emprego.
O diferencial passa a ser cada vez mais a combinação:
espaço + localização + mobilidade + serviços.
O corretor também precisa entender essa mudança
Para o corretor de imóveis, esse novo cenário exige uma mudança na conversa com o cliente.
Durante a pandemia, uma pergunta importante poderia ser:
“Você precisa mesmo morar perto do trabalho?”
Agora, talvez seja necessário perguntar:
“Quantos dias por semana você precisa ir ao escritório?”
A diferença parece pequena.
Mas pode mudar completamente a recomendação de imóveis.
Um cliente que trabalha presencialmente cinco dias por semana tem uma necessidade de localização diferente daquele que trabalha dois dias.
Um profissional que trabalha em Faria Lima tem uma necessidade diferente daquele que trabalha em Campinas.
Um comprador que utiliza transporte público tem uma necessidade diferente daquele que utiliza carro.
E um casal em que apenas uma pessoa trabalha presencialmente tem uma equação diferente de uma família em que os dois precisam se deslocar.
O corretor que entende essas diferenças consegue fazer uma análise muito mais precisa.
Para as imobiliárias, o mapa de demanda pode estar mudando
As imobiliárias também podem precisar revisar a forma como analisam seus clientes.
Durante alguns anos, a distância do centro perdeu parte da importância.
Agora, ela pode voltar a ganhar peso.
Isso significa acompanhar não apenas:
“qual bairro o cliente gosta?”
Mas também:
“onde ele trabalha?”
“quantos dias vai ao escritório?”
“qual é o tempo máximo de deslocamento aceitável?”
“usa carro ou transporte público?”
“possui filhos?”
“precisa estar perto de escola?”
“tem dois locais de trabalho na família?”
Essas perguntas podem se tornar ferramentas comerciais.
E não apenas perguntas de cadastro.
Para as incorporadoras, existe uma oportunidade de repensar produto
A mudança também pode produzir novas oportunidades de desenvolvimento imobiliário.
Um imóvel pensado para alguém que trabalha remotamente pode valorizar espaço interno, varanda e ambientes multifuncionais.
Um imóvel destinado a profissionais que voltaram ao escritório pode enfatizar localização, transporte, serviços e praticidade.
Um empreendimento híbrido pode tentar oferecer os dois mundos.
Um apartamento relativamente compacto, mas próximo de transporte e serviços, pode atender uma pessoa que passa parte da semana no escritório.
Uma casa maior em condomínio pode continuar atendendo famílias que mantêm o trabalho remoto ou híbrido.
O mercado pode, portanto, ficar mais segmentado.
O que os números ainda não conseguem responder
Essa é talvez a parte mais importante da reportagem.
Os dados atuais mostram uma mudança de comportamento.
Mas ainda não permitem responder definitivamente algumas perguntas.
Quantas pessoas efetivamente voltaram a morar na capital?
Quantas apenas deixaram de comprar imóveis no interior?
Quantas continuam morando no interior e passaram a enfrentar deslocamentos maiores?
Quantas mudaram para cidades intermediárias?
Quantas estão alugando em vez de comprar?
Quanto do aumento das escrituras na capital está diretamente relacionado ao retorno ao escritório?
Quanto é explicado por renda, crédito, preço, oferta ou outros fatores?
Essas perguntas ainda exigem pesquisas específicas.
E isso não diminui a importância dos dados existentes.
Pelo contrário.
Mostra que estamos diante de uma transformação que merece ser acompanhada.
Uma nova geografia do trabalho e da moradia
Durante décadas, o mercado imobiliário brasileiro foi fortemente influenciado pela concentração dos empregos.
Depois veio uma ruptura.
O home office mostrou que uma parcela dos trabalhadores podia produzir sem estar fisicamente próxima da empresa.
Isso permitiu que algumas famílias mudassem seus critérios de escolha residencial.
A pandemia acelerou uma experiência que provavelmente teria levado muitos anos para acontecer.
Agora o movimento está sendo parcialmente recalibrado.
Não necessariamente revertido.
Recalibrado.
O trabalhador descobriu que pode trabalhar de casa.
A empresa descobriu que algumas funções podem ser realizadas remotamente.
Mas também descobriu que determinadas atividades dependem de presença física.
O trabalhador percebeu as vantagens do home office.
Mas também enfrenta novas exigências presenciais.
O mercado imobiliário está absorvendo todas essas mudanças ao mesmo tempo.
Não é o fim do home office. É o fim da ideia de que a localização deixou de importar
Talvez essa seja a melhor síntese.
O home office não desapareceu.
O híbrido não desapareceu.
As cidades do interior não deixaram de ser atrativas.
Mas a localização do imóvel voltou a carregar uma variável que havia perdido importância:
a distância até o trabalho.
E os dados do CNB/SP sugerem que a movimentação imobiliária da capital e de determinadas cidades do interior já apresenta comportamentos diferentes depois do auge da pandemia.
Ao mesmo tempo, a pesquisa da WeWork e Offerwise mostra uma presença presencial muito maior no mercado de trabalho brasileiro do que aquela observada durante o auge do trabalho remoto.
São duas peças diferentes.
Mas quando colocadas lado a lado, ajudam a construir uma pergunta importante para o setor imobiliário.
A proximidade voltou a ter preço?
E talvez o futuro seja menos sobre “capital ou interior”
Essa discussão também precisa superar uma velha divisão.
Não necessariamente teremos:
São Paulo ganha e interior perde.
Podemos ter:
São Paulo ganha em determinados segmentos.
Cidades próximas aos polos de emprego ganham em outros.
Cidades com forte economia própria continuam crescendo.
Municípios dependentes do trabalho remoto perdem parte do impulso que tiveram na pandemia.
Cidades com boa infraestrutura de transporte ganham importância.
E regiões que combinam qualidade de vida e acesso aos grandes centros continuam competitivas.
O mercado imobiliário pode estar ficando mais sofisticado.
Não é mais simplesmente uma questão de distância geográfica.
É uma questão de tempo de acesso.
O que devemos acompanhar daqui para frente?
Para entender se essa é realmente uma tendência de longo prazo, alguns indicadores serão fundamentais.
O primeiro é a evolução das escrituras nas capitais e cidades do interior.
O segundo é o comportamento dos preços e dos aluguéis nas regiões próximas aos polos de emprego.
O terceiro é a frequência presencial exigida pelas empresas.
O quarto é o tempo médio de deslocamento.
O quinto é a ocupação dos escritórios.
O sexto é a migração populacional.
E o sétimo é a atividade econômica das cidades que ganharam população durante o home office.
Se esses indicadores continuarem apontando na mesma direção, teremos evidências mais fortes de uma mudança estrutural.
Por enquanto, temos sinais importantes.
E eles merecem atenção.
Análise Editorial Broker News BR
A percepção de que “o fim do home office está fazendo as pessoas voltarem para as grandes cidades” contém uma parte verdadeira, mas precisa ser tratada com muito mais cuidado.
Os dados disponíveis mostram que o trabalho presencial ganhou espaço significativo no Brasil. A pesquisa da WeWork com a Offerwise aponta que 63% dos profissionais entrevistados trabalham presencialmente, 20% em modelos híbridos e 12% remotamente. Além disso, 79% dos trabalhadores presenciais afirmam que a política de presença é determinada pela empresa.
Ao mesmo tempo, o CNB/SP identificou um recorde de 90.402 escrituras de compra e venda de imóveis na capital paulista em 2025, 49,6% acima do registrado em 2020. Algumas cidades associadas à expansão imobiliária durante o home office, entretanto, apresentaram quedas importantes nas escrituras entre 2021 e 2025.
A combinação é relevante.
Mas não prova uma migração em massa do interior para a capital.
O próprio CNB/SP alerta para essa interpretação e descreve o fenômeno como uma perda de intensidade nas transações imobiliárias depois de um período excepcional de expansão.
Também não é possível atribuir exclusivamente ao retorno aos escritórios o comportamento do trânsito ou do mercado imobiliário. São fenômenos influenciados por diversos fatores.
O que os dados permitem afirmar com mais segurança é que a relação entre trabalho e moradia voltou a mudar.
Durante o auge do home office, a distância até o escritório perdeu importância para milhões de trabalhadores que tinham condições de trabalhar remotamente. Com a expansão do presencial e do híbrido, essa distância voltou a entrar na conta.
Isso pode favorecer determinados imóveis próximos aos grandes polos de emprego, mas também pode fortalecer cidades intermediárias, municípios com boa infraestrutura de transporte e regiões que combinam qualidade de vida com acesso aos centros econômicos.
Para o mercado imobiliário, talvez a principal mudança seja justamente essa:
a localização não deixou de importar durante o home office; ela apenas passou a significar outra coisa.
Agora, ela pode voltar a ser medida não apenas em quilômetros, mas em minutos de deslocamento.
E esse pode ser um dos grandes temas imobiliários dos próximos anos.
A Broker News BR continuará acompanhando esse movimento porque ainda não há evidência suficiente para afirmar que estamos diante de uma reversão completa da migração para o interior.
O que existe hoje é algo mais interessante:
um novo equilíbrio entre morar melhor, trabalhar onde é necessário e gastar menos tempo para chegar até lá.
Produção Editorial Broker News BR
Esta matéria é um conteúdo original produzido pela equipe editorial da Broker News BR, elaborado com base em pesquisa, apuração e consulta a fontes oficiais e confiáveis do mercado imobiliário para informar corretores de imóveis, imobiliárias, construtoras, incorporadoras e investidores.
Fontes
Colégio Notarial do Brasil — Seção São Paulo (CNB/SP): levantamento sobre escrituras de compra e venda de imóveis no estado de São Paulo e mudança do comportamento imobiliário após o avanço do trabalho remoto.
WeWork / Offerwise: pesquisa “A Experiência Laboral 2026 no Brasil”, realizada com 2.500 profissionais em todo o país sobre modelos de trabalho, presença nos escritórios e deslocamento.
Companhia de Engenharia de Tráfego — CET: acompanhamento das condições de circulação e informações sobre mobilidade na cidade de São Paulo.
IBGE — PNAD Contínua: referência estatística sobre mercado de trabalho e teletrabalho no Brasil. Os dados estruturais disponíveis mostram que o teletrabalho nunca alcançou a totalidade da população ocupada e possui forte concentração entre determinados perfis profissionais.
Consulte fontes oficiais
Colégio Notarial do Brasil — Seção São Paulo
CET — Companhia de Engenharia de Tráfego
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Crédito Editorial
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